"O Evangelho da Natureza"

Discorrer sobre os mistérios do Novo Evangelho, é trazer luz sobre pungentes questões que dizem respeito, de forma objetiva, acima de tudo à humanidade em seu próprio nível. É elucidar a natureza e as correlações de dois princípios terciárias, o Espírito Santo e a Criação, e é deitar as bases de um inédito humanismo espiritual. É aprofundar e universalizar, em definitivo, aos chamados Mistérios Marianos. Em termos práticos, é reconhecer na Natureza o fundo universal que possui, em termos físico, psicológico, mental e espiritual, além, de culturalmente, conferir à Ecologia a importância que merece, a partir da identificação de uma dimensão maior a ela relacionada, enquanto parte divina. É, enfim, ancorar no foro humano as maiores realizações possíveis, em temos de saúde, amor, ciência e sabedoria. O Evangelho da Natureza é a grande chave revelada para o resgate da magia e para o reencantamento da Terra.

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Deserto e o Jardim Zen *


Quando reunimos ecologia e espiritualidade, não podemos deixar de pensar no espírito Zen, na arte e no paisagismo japonês, seu criterioso culto de harmonia. Temos para nós, que o paisagismo representa uma das grandes atividades dos tempos vindouros, sendo a visão de Deus como o Grande Jardineiro e Ecologista, uma das mais belas e promissoras, nesta época de urgências ambientais e carência espiritual, assim como de crise estética em geral.
É claro que nos preocupa a aculturação, por outro lado, não podemos deixar de aprender com a experiência. A nosso ver, o bambu merece conquistar o mundo. ...........
O texto que segue, é extraído da trilogia A Tradição Tolteca (Vol. II), de LAWS, e avalia a arte da jardinagem oriental à luz do xamanismo tolteca e vice-versa.
O xamanismo encontra seu campo de trabalho no ambiente natural. Nas culturas xamânicas, a Natureza é vista como um ambiente elementar, um campo de esforços para a criação e a evolução do homem, assim como para a sua regeneração. O ambiente xamânico por excelência é no geral extremado, seja ele as densas florestas (elemento Água), as vastas estepes (elemento Terra), as elevadas montanhas (elemento Ar) e áridas desertos (elemento Fogo). Este meio restritivo fortalece pois energias específicas, fornecendo "matéria-prima" ao ser humano, mas dificulta a organização superior e o desenvolvimento intelectual e técnico, induzindo ao desapego e à abstração, ao esvaziamento e à solidão. Por isto o xamanismo está associado a épocas remotas e a determinadas regiões do globo.
O nomadismo simbolizava a condição errante do homem no planeta. Afixar-se a um ponto sinalizava apego e ilusão. A peregrinação libertava o homem do acúmulo de posses. Neste estágio, o sacerdócio é o recurso-diretor fundamental, porque o espírito de sacrifício permite preservar com pureza o contato das forças naturais.
Os sábios buscavam o deserto para meditar e Moisés reteve por 40 anos o povo judeu no deserto para purificá-lo e poder realizar a sua missão racial. Sacrificou sua própria visão da Terra Prometida em nome da futura nação hebraica. Isto foi necessário porque o povo escravizado não teve capacidade para aceitar as primeiras leis dadas por Deus no Sinai, tendo para isto que chegar uma nova geração (ver também profecia em Apocalipse 11,2). As Leis Mosaicas tinham em vista depurar o estado de consciência atlante de adoração materialista do bezerro de ouro. Assim, a peregrinação surge como elemento de purificação e de renovação.
Desde que floresceu a cultura árya, o elemento conceitual tornou-se poderoso e o homem tem andado em busca da paz e da pureza da mente, assim como do resgate do coração. E para isto a Natureza é sempre um auxílio eficaz. Nela transparecem os quatro elementos, que formam o universo do coração (quarto Centro), e onde o homem surge como a quintessência.
Este estado reflete o espírito-Zen, a busca pela harmonia interior. Zen é corruptela do chinês Chan, do sânsrito Dhyana que significa "meditação". Meditar é sinônimo de auto-controle, de coordenação interior e de criatividade.
O Jardim-Zen oferece recursos para esvaziar a mente e gerar correntes mentais pacíficas. O símbolo da mulher-lua é o Vazio, expresso externamente pelo Jardim-Zen. A Lua é isenta de luz própria; ela reflete o Sol da mesma forma como a mulher reflete o homem.
Os princípios tradicionais de beleza e vazio podem ser empregados em ambientes conturbados visando harmonizá-los. Através da harmonia exterior o homem também encontra a harmonia interior e as coisas começam a revelar um desígnio superior.
Quando o homem alcança a harmonia interna, ele pode dedicar-se de forma positiva a recriar a sua existência, e foi isto que deu origem à civilização. O Jardim-Zen é uma lembrança das origens e também um recurso para renovar a mente e pacificar a alma, expressão característica do Dharma de Vazio (Sunyata-Dhama), como o de Gautama, lei espiritual destinada a purificar as consciências de suas estruturas corrompidas como castas e ritos em desuso. O Dharma de Gautama tinha uma estrutura numérica aparentada à do Regulamento do Nagual: Quatro grandes Leis (relacionadas às esferas elementais), postas em prática através de Oito Caminhos. E estava direcionado aos mistérios da consciência.
A busca do Vazio representa o resgate da consciência, retomada após a esvaziamento interno de um ciclo cultural estruturador, gerando um processo de materialização e formalização de costumes, perdendo sua vitalidade interna e permanecendo apenas a forma externa como verdadeira cadeia espiritual.
Por isto o Jardim-Zen não prevê nenhuma espécie de árvore -isto é, de vida orgânica. Ele é árido e se compõe unicamente de pedras, o reino mais estático da Natureza, sinalizando o retorno a uma condição original, para realizar uma limpeza tão completa quanto possível dos conteúdos subjetivos. Qualquer possibilidade de movimento deve ocorrer sobre novas bases, e estas apenas podem ser obtidas através da meditação no vazio.
O Jardim-Zen é o deserto, onde não chove e não existe vida ou atividade. O monge meditante afasta todo o sentimento e todo o pensamento.
O reino mineral é o básico em qualquer planeta. Ele não está sequer associado à vida como tal. No entanto, seus componentes fazem parte da ordem biológica e estão na sua base.
É também sobre o Jardim-Zen que se começa a recriar a Natureza interior. É sobre o vazio que a Criação aparece em sua verdadeira harmonia original. No treinamento dos guereiros toltecas, a aridez das montanhas é empregada para concentrar energias (Castañeda, O Segundo Círculo do Poder, pgs. 76-77). A contemplação está na base dos trabalhos dos videntes, e a Natureza deve ser empregada para isto. O propósito inicial é deter o fluxo dos pensamentos e despertar a segunda atenção. Com esta o vidente torna-se capaz de penetrar na essência dos reinos, sejam eles mineral, vegetal ou animal, assim como em fenômenos da Natureza como vento, o nevoeiro, as nuvens, a chuva e o raio. Inicialmente emprega-se os reinos mais estáticos, e depois os "fenômenos cíclicos", ou os elementos mais dinâmicos. Uma última série inclui o fogo, a fumaça e as sombras, havendo ainda as estrelas e a água, tidas como práticas muito avançadas (Castañeda, op. cit., pg. 215 ss.).
Os desertos e os chaparrais são ambientes desafiadores porque exigem do homem poder interior. Induzem à solidão e à autoconcentração como nenhum outro, sendo assim geradores de poder. Certamente os pampas se incluem neste quadro.
O Jardim-Zen é um pequeno deserto artificial, despido de vegetação luxuriante. Mas a partir dele pode-se começar a recriar a vida, surgindo com isto a arte do paisagismo sagrado, tal como no Jardim-Tao ou o "jardim japonês" (meio-termo entre o Jardin-Zen e o Jardin-do-Éden), que imita a natureza em sua harmonia essencial. Nele os quatro elementos, que são as essências da vida, estão em perfeito equilíbrio. Não expressam uma verdadeira ordem hierárquica solar ou centralizada, como numa mandala (Jardim-Éden), mas simbolizam a beleza e a abundância natural e o bem-estar humano, propiciando a realização do ideal humanitário quádruplo de níveis pessoal, conjugal, social e espiritual.
O Jardim-Tao é o padrão das Idades de Bronze, assim como o Jardim-Zen é da Idade de Ferro. Regidos pela República, não são propriamente o reino da ordem, mas antes a procura da harmonia em ambientes caóticos. Mas por isto refletem a busca pela renovação e a reconstrução do edifício do conhecimento e da espiritualidade desde suas raízes. A República -assim como a Democracia- é um resgate de valores essenciais, a "busca pela humanidade básica" de cada um. Seus limites são também evidentes, e à medida em que emerjam valores mais elevados, deve-se resgatar também aqueles padrões superiores de organização, próprio da Teocracia, por exemplo.
Observemos pois o seguinte quadro:
Jardin Zen ................. plano físico.
Jardin Tao ................. plano emocional.
Jardin do Éden ........... plano mental.
É um fato que a complexa estruturação do "grupo do Nagual" atesta um desenvolvimento considerável da tradição tolteca. Reflete o seu grau de conhecimento e de poder ao organizar hierarquicamente a sociedade de guerreiros -não tanto uma hierarquia vertical, mas antes horizontal; se se pode assim dizer. O Nagual é quem "detém em mãos o mito vivo", dizem os guerreiros.
Por outro lado esta ordem não chega a irradiar-se abertamente na sociedade, o que é também reflexo da época materialista que impede maior integração, assim como do ambiente repressor que sofre o indígena. Este quadro de isolamento limita o progresso espiritual em toda a parte. Os antigos videntes pertenciam a um ambiente de maior integração, mas também limitado e sujeito à corrupção. Com a chegada dos espanhóis conheceram uma crise maior e passaram a trabalhar em grupos fechados, adaptando-se ao mundo e criando espaços alternativos para as suas viagens de conhecimento.
O Jardim-Zen induz a este regresso para que o mundo possa ser vivido em sua pureza e integridade original. O homem busca a Natureza para se fortalecer contra os vícios humanos acumulados na Civilização. Ele não pode viver no Jardim-do-Éden enquanto tiver impurezas na alma. Deve ser dirigir para o Jardin-Zen a fim de recobrar a consciência, obtida através do Vazio, que é a experiência do aqui-e-agora proporcionando a Presença Autêntica e a condição de Homem Verdadeiro.
O ensinamento tolteca afirma que o Nagual auxilia as pessoas a viver o aqui-e-agora. Na formação do guia-Nagual é muito importante o conhecimento da natureza humana e suas mazelas psíquicas.
A Natureza fornece os recursos elementares da vida humana nos quatro planos de Criação: físico, psíquico, mental e intuitivo.
Em termos básicos, o nível físico deriva da fartura de alimento, no nutriente material que ele colhe nos frutos das árvores e nos grãos, e também nos processos químicos do Sol.
O nutriente psíquico está presente na beleza e na vastidão do meio natural, assim como nos desafios ao espírito que ele oferece e na companhia dos semelhantes.
O nível mental se encontra no conhecimento da ordem que prevalece em todas as coisas e nos recursos que deve desenvolver para a sobrevivência, inclusive aprendendo com os mais sábios.
Por fim, o nível intuitivo se encontra na percepção da harmonia cósmica e do sentido maior que pressente-se por detrás de tudo, fornecendo um sentido sagrado à existência.
Estes alimentos básicos o homem encontra na Natureza, e deve continuamente buscado. É sobre esta base unicamente que se pode construir a verdadeira ordem civilizatória e toda a harmonia humana. A humanidade é uma superestrutura a ser colocada sobre a base natural. Mas quando esta superestrutura se desgasta, então é preciso recomeçar todas as coisas desde o princípio, porque aquilo que se corrompe também se contamina.
Esta é uma das razões para a atual revalorização do ambiente natural, de resto tão ameaçado em sua integridade. Além, é claro, de sua importância cósmica no futuro. São estes pois os três níveis de trabalhos "ecológicos" que procura a humanidade atual:
1. Nível Físico: Preservação do ambiente natural;
2. Nível Psíquico: Resgate das bases elementares da existência;
3. Nível Mental: Valorização do aspecto espiritual da Criação. •

* Da obra A Tradição Tolteca, Vol. II: "A Mariposa de Fogo", LAWS. No original: "O Deserto e a Árvore do Conhecimento".

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